11 3159 1970 / rua gen. jardim 482 c132

memorial

Transformar um edifício ordinário em uma construção simbólica da proteção e difusão do conhecimento: a nova Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Essa é a questão essencial da proposta de intervenção arquitetônica no prédio 205 da rua Senador Feijó, no centro de São Paulo.

A poucos metros de distância do histórico edifício da faculdade de Direito no Largo de São Francisco, a construção da biblioteca nesse lugar é um ato de afirmação da manutenção desse curso universitário no seu local de origem. A relação entre esses dois edifícios se dará pela rua, como estratégia de manutenção da vitalidade da região central. Por isso, modifica-se o caráter da entrada ao prédio que abrigará a biblioteca: a atual estreita porta no canto da fachada é substituída por uma abertura mais ampla, dando acesso a um espaço de acolhimento com pé-direito duplo, dimensionado de acordo com uma certa distinção necessária ao se adentrar um prédio público dessa importância e uso comunitário.

O edifício existente contém um problemático vazio central: um prisma de ventilação que divide o prédio em duas partes com estreito espaço de ligação entre elas. Entretanto, o problema contém a reserva espacial que soluciona uma série de questões para a implantação da biblioteca. O atual vazio, central no lote porém exterior à construção e sem usufruto funcional, passa a ser o vazio interior, o núcleo que une e organiza espacialmente todo o conjunto edificado. 

Ergue-se uma nova construção dentro do edifício existente, ocupando o antigo fosso para ventilação. As paredes desse trecho do perímetro do prédio são retiradas, e é construída uma estrutura primaria metálica com fechamento em painéis de concreto. Uma dupla de elevadores, próximas a empena do prédio, circunscreve o novo vazio interior definido pela iluminação natural proveniente da cobertura translúcida. Balcões de leitura, revestidos com placas de madeira, funcionam como travamentos horizontais para a estrutura metálica.

Do subsolo à cobertura, os espaços conectam-se verticalmente nesse núcleo central. Por sua vez, os balcões em madeira permitem a permeabilidade visual entre as extremidades do edifício em cada andar. Desse modo, o vazio que era um bloqueio não utilizado, transforma-se em elemento de união de todo conjunto construído, qualificando a ambiência para os estudos, tornando a leitura e percepção espacial mais clara em qualquer ponto do edifício, e dando um estatuto de solenidade ao usufruto do lugar pelo usuário. 

Um argumento de ordem mais pragmática coloca o ato de operar projetualmente dentro do vazio preexistente também como resposta direta a uma demanda do edital do concurso, a fim de otimizar a abrangência da intervenção necessária para a criação da biblioteca. A soma das áreas do programa requerido ocuparia um espaço maior do que o edifício existente poderia abrigar. Existia a opção pelo uso de dois andares do edifício Cláudio Lembo, porém era desejável concentrar todo o programa necessário no lote da rua Senador Feijó para garantir uma certa autonomia a nova biblioteca. Assim, soluciona-se essa equação de áreas com dois novos pavimentos para uso administrativos, sobrepostos ao edifício existente, porém, estruturalmente independentes a ele por serem sustentados unicamente pela estrutura metálica que nasce no antigo prisma de ventilação.

Retornando a análise do rés-do-chão, após a chegada com o vestíbulo de acolhimento, uma área para pequenas exposições e o balcão de atendimento com guarda volumes, temos uma escadaria sob o vazio central que encaminha ao subsolo. Ao fundo, o espaço destinado a leitura de periódicos desfruta da vista de um pequeno jardim na altura do subsolo, possível devido a demolição de um anexo existente no fundo do lote. Esse espaço verde é uma extensão do café, localizado no piso subterrâneo junto a espaços de serviço como vestiários para funcionários, enfermaria, copa e salas técnicas.

A área destinada ao acervo de livros e aos espaços de estudo é predominante na nova edificação, ocupando oito andares da construção original. Mais próxima à rua estão os espaços destinados à guarda e conservação de publicações, com capacidade de armazenamento para 160 mil volumes, tendo prevista a duplicação dessa quantidade em cinqüenta anos. Sendo a leitura uma experiência caracterizada pela introspecção, concentração e privacidade, as áreas destinadas a ela demandam um certo isolamento físico e, por isso, ocupam a parte posterior do lote, mais distante do movimento e do ruído das vias públicas. 

Nos andares superiores, temos o auditório para 100 pessoas frente a um espaço de encontros (foyer) com um pequeno café, e uma sala multimídia com 50 computadores. Aos usuários dessas salas, por estarem numa cota de nível elevada, descortinam-se belas vistas do Largo de São Francisco e a metrópole.

A circulação vertical da biblioteca foi completamente reestruturada em comparação ao existente. Dois elevadores ocupam parte do antigo vazio. Uma escada enclausurada foi disposta no lugar da antiga prumada. E, nas extremidades do edifício, justapõem-se escadas metálicas as faces externas das fachadas norte e sul. Nelas se comunicam os pavimentos destinados às áreas de leitura e acervo, tendo a imagem e a relação com a cidade como parâmetro do interior da biblioteca - numa relação de sucessão entre o estar dentro e o estar fora -, fugindo de qualquer enclausuramento do edifício em si próprio. Assim, teremos um tipo de promenade ainda inexistente no centro de São Paulo, semelhante a experiência no Beaubourg de Paris, pois conforme subimos, gradativamente nos distanciamos da rua próxima e apresentam-se aos olhos pontos cada vez mais longínquos da cidade. 

A escada da fachada norte (rua Senador Feijo) será construída sobre a calçada, alinhada à marquise existente, sendo legalmente amparada pela Operação Urbana Centro que prevê, em suas diretrizes, um estimulo aos usos de caráter cultural na área central, que garante vantagens a essas intervenções como o aumento do coeficiente de aproveitamento do solo, sem que haja outorga onerosa.

A essência dessa intervenção arquitetônica é a nova estrutura que nasce de dentro da edificação existente, modificando andar por andar conforme ela sobe, e aflora sobre a cobertura com um volume em suspensão que marca a expressão interventora - o gesto do arquiteto - e, assim, apresenta-se como imagem da novidade para a cidade. Essa operação que se faz no miolo do edifício não é uma simples justaposição mecânica de elementos díspares. A relação entre o novo e o existente é mais intrínseca. É um ato antropofágico: o velho é devorado pelo que surge, transformando-se para sempre. Ao converter o espaço renegado pelo edifício original em eixo central e essencial da nova biblioteca, atua-se como Oswald de Andrade preconizava: transforma-se o tabu em totem.