11 3159 1970 / rua gen. jardim 482 c132

memorial

“A arquitetura como construir portas, de abrir: 

 ou como construir o aberto;

 construir, não como ilhar e prender...” 

João Cabral de Melo Neto


A implantação do campus UNIFESP em São José do Campos deverá constituir um marco de transformação urbana para uma área hoje ainda isolada, porém com certa proximidade a importantes eixos de ligação e infraestrutura da cidade. Portanto, esta nova moradia estudantil, juntamente com os demais edifícios a serem instalados no novo campus deverão cumprir um papel de ativador urbano. Desta maneira, procuramos implantar o programa em sua totalidade acentuando os itens de caráter público como espaço de conexão com o entorno futuro. Um edifício lâmina, implantado longitudinalmente ao terreno é alimentado por uma nova rua interna projetada, que deverá interligar o viário em contato com a malha urbana à esta via, com possibilidade de continuidade para a área destinada a convivência, ambas propostas no edital.

O programa está distribuído de maneira a tirar proveito da suave declividade do lote existente no sentido da disposição proposta para o novo edifício. Uma praça de acesso, de caráter cívico, onde a lâmina sofre uma inflexão para acomodá-la ao lote, inserida o mais próximo do nível da rua principal de acesso, orienta a distribuição do programa nos pavimentos do edifício. A partir dela o pavimento é organizado de maneira a separar os usos coletivos restritos e não restritos ao público externo. Programas de caráter público, biblioteca, academia, cineclube / miniteatro, caracterizam o térreo em dois níveis. Uma nova ponte, que deverá conectar como uma promenade o nível programa público, miniteatro/ cineclube à área esportiva, ao cruzar a nova rua interna, atua como uma “mini Plataforma Rodoviária” para o espaço de chegada de ônibus e bicicletas (bicicletário), transformando o rés do chão, ativado pela biblioteca, num segundo acesso controlado (parte do programa de controle está inserido neste pavimento). Neste contexto, é possível supor que o acesso aos elevadores poderá ser facilmente monitorado para portadores de dificuldade motora.

O hall de acesso principal às moradias está inserido no nível da praça do miniteatro, onde deverá controlar as demais áreas do uso coletivo geral no mesmo andar, como um hiato, um respiro, separando os seis pavimentos destinados às moradias em quatro para cima e dois para baixo. No extremo oposto deste programa o vazio é encerrado com a academia, como um mirante para a paisagem da área destinada à convivência.

Na outra ponta da edificação, o térreo é destinado aos serviços (entrada de energia/coleta de lixo/ terceirizados), porém tratado não como fundo, e sim como importante acesso, de caráter sustentável e pedagógico.

Por se tratar do ponto mais baixo do lote, sugerimos um sistema de captação, filtragem e tratamento (permacultura), que ao longo da edificação aflora como um jardim de captação pluvial para desenhar este limite do lote, como uma praça verde, literalmente construída como um reservatório subterrâneo de água para reúso. Neste sentido, o edifício funciona como uma máquina autônoma com tecnologias já conhecidas para economia de água e energia, no térreo, a infraestrutura para água, na laje de cobertura como um coroamento, lâminas de captação para energia solar para os diversos usos.

As habitações, como mencionada anteriormente, estão distribuídas em seis pavimentos tendo como eixo organizador de acesso para as circulações verticais o pavimento de uso coletivo geral. O programa destinado às moradias estão distribuídos de forma a facilitar o convívio de seus usuários. Desta maneira, a moradia destinada aos portadores de dificuldade motora estão próximos ao nível público intermediário, próximo também as demais moradias dos estudantes em geral. Na inflexão da lâmina, ponto de convergência em todos os níveis se concentram os programas de estar, estudo e varanda. As moradias destinadas as famílias estão no bloco de menor comprimento a partir da inflexão, favorecendo a relação de caráter mais intimista, ideal para esta ocupação. O edifício segue a lógica de uma modulação rígida, 4,00 x 9,50m, com as moradias voltadas circulação aberta, ora protegida por brises verticais, ora com abas horizontais quando mais aberto - como janelas para a paisagem.

Sua disposição linear deverá flexibilizar as alterações de programas afins (quartos, estar e cozinha), pois estes se encontram sempre dispostos no mesmo eixo, além de favorecer a circulação de ar e insolação para ambas as faces.

O SISTEMA CONSTRUTIVO

Ao pensar a questão de uma construção sustentável nos deparamos com os dilemas relacionados aos processos de fabricação e do consumo de matéria prima, sejam eles minerais, componentes agregantes, água ou geração de energia.           

É a ideia de uma construção que trabalha com matéria prima mínima necessária para responder às condições físicas não só do ponto de vista da estrutura mas também de seu desempenho mecânico e comportamento térmico tendo como fi m atingir não só a qualidade técnica, exigida pelas normativas especificadas por instituições responsáveis por estas medições (NBR), mas evidentemente uma economia coerente com a lógica construtiva aqui proposta.

Quando pensamos na utilização de estrutura metálica como estrutura primária e de painéis de concreto, seja para laje de piso, seja para parede, estamos levando em consideração a variedade de fabricantes das matérias primas e também do produto final, encontrados em todo o país. Da mineração aos produtores de perfis metálicos ou painéis de concreto abrimos uma enorme possibilidade de equiparação de fornecedores no mercado comum. Trata-se de pensar um processo de pré-fabricação ordinário, sem condicionantes especiais que fujam do nosso cotidiano. E Melhor ainda, pensar a pré-fabricação fora do canteiro, ainda no produtor, reduzindo não só resíduos geados no canteiro de obras (=obra seca), mas também simplificando a logística de transporte dos componentes.

Desta maneira, a partir de uma peça encontrada em larga escala em qualquer estado do Brasil (laje painel/laje treliça) pensamos um sistema construtivo que se inicia no fornecedor, como uma pré-montagem tendo como destino final o canteiro de obra com duas importantes funções estratégicas: organizar o armazenamento das peças no canteiro para depois simplesmente iniciar a montagem otimizada sem a necessidade de mão de obra especializada.

A lógica econômica deste sistema proposto, do ponto de vista físico financeiro, apesar de utilizar materiais considerados de alto valor no mercado para obras deste porte, se ampara na condição de tirarmos partido da redução de peso no concreto dos painéis. Ou seja, os painéis são montados em paralelo, como a mesma armação interna, porém agora ocos em seu miolo. Ao adaptar o processo fabricação destes painéis sem alterar a logística do fabricante, será possível conseguir este produto com considerável economia.

PAINÉIS LEVES / ESTRUTURA METÁLICA COM MENOR CARGA

A grande vantagem oferecida neste sistema está no resultado do calculo da estrutura metálica. A leveza da solução dos painéis de concreto, tanto no piso quanto nas paredes resultará em fundações e estrutura primária mais esbeltas, consequentemente mais econômico. A redução significativa do desperdício de matérias e a velocidade de montagem da obra são também fatores preponderantes neste processo. Todas as peças seriam dimensionadas conforme a modulação estipulada em projeto. Peças adequadas aos vãos da estrutura e seu pé direito.

A laje oca atua como uma sequência de vigas treliças apoiadas nas vigas metálicas, por sua vez, os painéis que compõe as paredes são menos exigidos em sua forma estrutural, por isto podem ter a espessura dimensionada para condições específicas. Podendo ter o vazio ocupado por instalações quando necessário.

O comportamento térmico é de alto desempenho, por ter em seu interior, apenas ar, ou seja, baixíssima transmissão de temperatura. O fato da matéria possuir massa densa ritmada por juntas favorece também o desempenho acústico. Um dos fatores mais importantes que levamos em conta para o uso desta solução, além da facilidade de manutenção, está na ideia de uma obra acabada com a característica aparente de seus materiais, sobriedade e dignidade, mesmo quando o concreto estiver pigmentado, e também na condição perene, de aspecto duradouro, que este tipo de construção pode apresentar ao longo de sua existência.